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Depoimentos 3 (Brasília)

Luis Fernando Verissimo

"Sabe quem manda neste país? Não é o executivo, não é o legislativo, não é o judiciário. Somos nós. As secretárias. Nós temos na mão a alavanca do poder, que é a agenda. Quem controla as agendas controla o país. E quem atende os telefones e decide se passa a ligação ou diz que está em reunião controla o mundo. É por isso que quando eu rezo, não peço nada a Deus. Peço à secretária d´Ele, que é quem tem a agenda."

"Meu nome é Marcos Otávio Barbosa Abrantes Curvelo. Você não me conhece. Ninguém conhece. Sou o embaixador do Brasil em Brasília. Minha missão é difícil. Brasília não reconhece o Brasil e nossas relações têm sido tumultuadas. Quando entreguei minhas credenciais ao presidente, não nos entendemos, apesar de, como se sabe, o presidente ser natural do Brasil e falarmos o mesmo idioma. E o intérprete só atrapalhou. Não nos interessa um conflito e tenho me empenhado para que Brasília pelo menos aceite que o Brasil existe."

"Eu me chamo Luzilete e já fui a garota de programa mais bem paga e mais influente desta cidade, até meu acidente. Foi culpa minha, pura distração. Fui com um político para um motel aqui de Brasília, o Convocação Extraordinária, entrei na banheira redonda com ele e me esqueci que estava com um microfone e um transmissor colado ao corpo. Pra quê! Levei um choque, me queimei, o cara fugiu e eu tive que pagar pelo equipamento inutilizado."

"É preciso muito cuidado ao acusar as pessoas. Me acusam de nepotismo. Pera lá. Eu ando de sandália mas não sou burro. A palavra 'nepotismo' vem do italiano 'nepote', que quer dizer 'sobrinho'. Nepotismo era o hábito dos papas de nomear seus sobrinhos para trabalhar com eles. E eu desafio qualquer um - qualquer um - a provar que tem UM sobrinho de papa trabalhando no meu escritório no Congresso!"

"Sou segurança. Com licença. Não, nada de entrevistas. Olha a frente, por favor. Quer dar licença? Abaixa essa câmera. Olha a frente. Ah, a entrevista é comigo? Tudo bem. Você se importa se eu empurrar você durante a entrevista? Só sei falar com repórter empurrando. Vamos lá. Meu nome é Agenor. Olha a frente. Quer dar licença? Sou de Aquário, gosto de Ivete Sangalo e Roberto Carlos e..."

"Tenho autógrafo de um montão de político importante. Olha aqui... Senador, deputado... Alguns assinam com pseudônimo, ninguém está querendo assinar nada, ultimamente. Como é que faz para conseguir autógrafo de político? É fácil. É só ir no lugar que eles frequentam mais aqui em Brasília. Eu passo o dia inteiro no aeroporto."

"Eu sou uma pessoa absolutamente normal, como vocês estão vendo. Bem educado, bem vestido, afável, discreto. Nada fora do comum. Cuidadosamente penteado, unhas manicuradas, tudo. Mas assim que o Congresso entra em sessão eu me transformo em... lobbyhomem! Sim. Ando pelos corredores sombrios da Câmara e do Senado atrás das minhas presas. E, quando encontro um deputado ou um senador, dou o bote. Peço com jeito para ele aprovar a legislação que interessa ao meu cliente. Mas se ele resistir, eu o agarro e o arrasto para um bom restaurante e pago a sua conta, impiedosamente."

"Estou no Congresso representando várias minorias nacionais. Sou meio índio, meio negro, meio japonês, meio homossexual e meio honesto."


Domingo, 11 de setembro de 2005.



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